Espiritualidade Inaciana
O CAMINHO DOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
O QUE SÃO OS EXERCÍCIOS?
1. Inácio anotou suas experiências e os caminhos que seguiu interiormente, pensando em ajudar os outros. Queria que as pessoas pudessem fazer, elas próprias, suas experiências de Deus, do Evangelho de Deus, do Reino de Deus. Estas anotações, bem ordenadas, ele as reuniu num livrinho, os famosos "Exercícios Espirituais".
2. Ele descreve os exercícios com uma simples comparação: assim como correr, andar etc. são exercícios físicos, exercícios espirituais são qualquer modo de examinar a consciência, de meditar, de contemplar, de orar vocal ou mentalmente, etc.
3. Estes diversos modos se orientam para ajudar a pessoa a tirar de si todas as afeições desordenadas, e, depois, buscar e encontrar a vontade de Deus, que é uma vontade de salvação para todos e cada um de nós, como sabemos por Jesus Cristo.
4. O livrinho dos Exercícios não é um livro para ser lido. Podemos compará-lo a um manual de ginástica. Só fazendo fielmente os exercícios propostos, quem se põe a trabalhar sentirá seus efeitos curativos, corretivos e a melhoria de sua saúde interior, de sua capacidade de sintonizar com Deus, Majestade e Caridade infinitas.
5. Os exercícios são oração. É preciso que a pessoa os comece com boa vontade, ânimo e generosidade, dons interiores que sempre é possível pedir a Deus bondoso. Em cada exercício se pede, humilde e confiantemente a ele que todas as nossas ações, orações, operações sejam voltadas somente para ele. Pedimos também a graça própria daquele momento espiritual vivido, por exemplo, dor e sentimento verdadeiro pelos nossos pecados e faltas ou conhecimento interno de nosso Senhor, que por nós se fez carne para nosso bem e salvação.
6. Uma coisa muito bonita, típica dos exercícios inacianos, é que não é importante acumular muita coisa na cabeça, mas sentir e saborear internamente. Vale a pena ver como Inácio recomenda que o orientador não fale muito, mas dê com simplicidade os esclarecimentos necessários para que a pessoa se encaminhe bem para fazer o exercício.
7. Inácio tem razão em dizer que o que a pessoa descobre por si mesma, partindo do fundamento verdadeiro da história de nossa salvação, quando encontra alguma coisa que a ilumine e faça sentir melhor aquele ponto, "tem maior gosto e fruto espiritual do que se quem dá os exercícios explicasse" tudo com pormenores. Em uma palavra: é o exercitante quem faz os exercícios e tira proveito deles. O outro é um orientador para garantir o método e a ordem, ajudar a superar os obstáculos e dar ânimo na hora da luta, da vontade de deixar para lá...
8. Os exercícios completos levam cerca de 30 dias. São feitos com melhor resultado quando a pessoa toma distância dos negócios, ocupações, rotinas, amigos e conhecidos para aceitar o convite de Jesus aos seus discípulos: "Passemos a outra margem", isto é, a um lugar onde, sem tanto aperto, pudessem se dar a escuta do Mestre.
9. No entanto, os exercícios, como qualquer ginástica, podem e devem ser adequados às forças e disposições de cada pessoa. Podem ser alguns exercícios iniciais, depois, exercícios que o próprio Inácio chama de "leves", para entrar num ritmo mais "puxado" quando a pessoa estiver mais robusta e preparada.
10. Como os Evangelhos, em particular o de São Marcos, os exercícios têm uma primeira etapa de purificação interior, de descoberta das funduras do pecado e da imensidão da misericórdia de Deus. Só quando a pessoa que se exercita chega a desejar saber do Pai das misericórdias, das luzes e de toda a consolação o que deve fazer pelo Cristo, então poderá ter ouvidos para ouvir o convite do Rei, o apelo de Jesus e começar a ver e prever os próprios rumos comparados com o fundo luminoso dos passos de nosso Redentor. O Reino de Deus é o reinado da justiça, da paz verdadeira, do amor solidário e misericordioso. Onde falta justiça, o direito dos povos e das pessoas são atropelados, ou nem sequer se tem noção da dignidade da pessoa humana, seja ela pequena ou grande, pobre ou rica, instruída ou analfabeta, saudável ou doente, é preciso anunciar o Reino, trabalhar pelo Reino e seus valores, dar testemunho de um serviço solidário e comprometido pelos que sofrem. A fé autêntica responde ao chamado de Jesus, dizendo: "Estou aqui, Senhor! Envia-me!" A fé pede justiça na caridade de Cristo que nos impele! Nos exercícios, chega um momento em que devemos tomar consciência do que constrói o Reino e do que ataca o Reino, e pedir a graça de sermos bem claros a este respeito, para agirmos conforme o Evangelho da Salvação nossa, de toda a humanidade, de todas as criaturas.
11. Assim, os exercícios vão levando a um nível, onde a pessoa pode se dar conta - com a graça que Deus não nega a quem procura e pede - do que deve fazer de sua vida, como membro do Povo de Deus, cidadão do Reino, filho da Igreja, nossa Mãe, que nos gerou em Cristo. É o momento da "eleição de estado de vida", ou, quando esta já foi feita, de "reforma de vida".
12. Para quê? A esta altura, é claro que eleição ou reforma de vida é para viver com maior beleza e fidelidade a graça do batismo, que faz, de cada um de nós, filho, filha de adoção do Pai. É para levar a vida evangelicamente. É para mais amar, mais conhecer e mais servir a Deus nosso Senhor. É para trabalhar como Jesus pelo Reino do Pai, uma sociedade humana fraterna, justa, solidária, um ser humano livre das paixões desordenadas, do pecado, pronto para ser "gente para os demais".
13. Feita a eleição ou reforma de vida, a pessoa pode entrar na contemplação do amor até às últimas conseqüências, o Mistério da Páscoa, a paixão e morte e ressurreição de Jesus Cristo, que nos amou até o extremo, até o fim.
14. Se nosso amor chega a ter esta revelação, com a graça pedida em cada exercício, experimentando união com Jesus na sua entrega ao Pai por nós então, fica confirmada a eleição ou reforma de vida feita.
15. Começa uma etapa de vida nova, um olhar novo para a mesma realidade de nosso tempo. As coisas se mostram para nós como dons de Deus. Todo o bem nasce dele e leva a ele. Nosso olhar interior é capaz de ver todas as coisas de novo modo, pois ficamos de coração convencido que o Criador trabalha em todas as coisas, que o seu Amor, todo amor verdadeiro, se mostra mais em obras do que em palavras.
16. Podemos, por isso mesmo, a cada dia que se encerra, rezar mais ou menos assim:
Tomai, Senhor, e recebei, toda a minha liberdade, a minha memória e entendimento e toda a minha vontade. Tudo o que tenho e possuo vós me deste. A vós, Senhor, restituo. Tudo é vosso. Disponde segundo a vossa vontade. Dai-me somente o vosso amor e vossa graça, pois ela me basta [Exercícios Espirituais, no. 234].
Método de Oração Inaciano
Orando como Santo Inácio de Loyola



